Pránáyáma
Pránáyáma: Aprender a Respirar no Meio do Ruído.
Vivemos numa acumulação constante de estímulos, responsabilidades, ruído… stress.
Passamos os dias em aceleração e, muitas vezes, quando finalmente surge um momento de pausa, procuramos mais distração. Mais informação. Mais estímulos. Mais ruído.
Mas quando é que paramos verdadeiramente para nos escutar?
Quando é que nos permitimos sentir o que está a acontecer dentro de nós?
Em qualquer relação saudável, a comunicação é essencial. Numa amizade, numa relação amorosa ou familiar, precisamos de tempo e atenção para conhecer o outro, compreender os seus limites e construir proximidade. Curiosamente, na relação connosco próprios, esquecemo-nos frequentemente de fazer o mesmo.
E o corpo acaba por refletir essa ausência de escuta.
O sistema nervoso entra em sobrecarga. A mente torna-se mais agitada. As emoções acumulam-se. O organismo perde vitalidade.
Quando falo de energia, não me refiro a algo místico ou abstrato. Refiro-me à nossa capacidade de funcionar bem. À sensação de leveza, clareza mental e disposição que todos reconhecemos quando estamos equilibrados. Da mesma forma, todos sabemos identificar os momentos em que nos sentimos drenados, pesados ou sem recursos internos para lidar com os desafios do dia a dia.
É precisamente aqui que o Pránáyáma se revela extremamente importante.
Através da respiração conseguimos influenciar diretamente o nosso estado interno. À medida que desaceleramos a respiração, começamos também a desacelerar mentalmente. E quanto menos ruído existe, mais clareza surge.
A mente assemelha-se muitas vezes a uma sala cheia de pessoas a falar ao mesmo tempo. Quando todas falam em simultâneo, torna-se impossível compreender a mensagem. Mas quando o ruído abranda, começamos finalmente a ouvir.
E essa capacidade de escuta muda a forma como vivemos.
O Yoga não elimina os desafios
Praticar Yoga não faz desaparecer os desafios da vida. Eles continuam presentes, porque fazem parte da condição humana. A diferença está na forma como aprendemos a relacionar-nos com eles.
Ao longo da vida vamos treinando o corpo para desempenhar determinadas tarefas, mas raramente treinamos a mente com a mesma dedicação. Durante anos habituamo-nos a viver em reação automática, em constante aceleração e frequentemente dominados pelas circunstâncias exteriores.
O Yoga propõe um caminho diferente.
Um caminho de treino gradual, consciente e contínuo.
Tal como um cão necessita de paciência, repetição e consistência para aprender a caminhar tranquilamente ao nosso lado, também a mente precisa de treino para deixar de nos arrastar constantemente em todas as direções.
A prática torna-se assim um verdadeiro laboratório da vida.
Num ambiente controlado, somos confrontados com desafios, limitações, desconforto e frustração. E, simultaneamente, aprendemos ferramentas para responder de forma mais equilibrada e consciente.
Não é a vida que se torna necessariamente mais fácil.
Somos nós que nos tornamos mais preparados para a viver.
1. O que é o Pránáyáma?
Dentro das catorze Disciplinas Técnicas do Yoga, o Pránáyáma é considerado uma das mais importantes.
Tradicionalmente, pode ser definido como:
Pránáyáma – Exercícios respiratórios de influência Pránika/ energética – emocional e neurovegetativa.
“De influência Pránika / energética”, antes de mais, vamos perceber de onde vem a palavra “Pránika” e, para isso, precisamos analisar a palavra “Pránáyáma”. A palavra é composta por dois elementos:
Prána – é a Energia Única Utilizável, de onde proveem todas as energias utilizáveis do Universo.
Yáma – domínio.
Assim, Pránáyáma é o domínio do Prána. Posto isto a palavra Pránika vem de Prána.
Ao longo dos séculos, diferentes tradições procuraram explicar este conceito sob diversas perspetivas. Independentemente da linguagem utilizada, aquilo que importa compreender é que a respiração constitui uma poderosa ferramenta de influência sobre o nosso estado físico, emocional e mental.
1.1. A respiração: uma ponte entre o automático e o consciente
Agora vamos compreender outra parte da definição de Pránáyáma. Vamos perceber porque é que são “exercícios respiratórios de influência neurovegetativa”.
Grande parte das funções do organismo ocorre de forma automática.
O coração bate sem que tenhamos de pensar nisso. A digestão acontece sem intervenção consciente. A temperatura corporal regula-se constantemente sem necessidade de controlo voluntário.
A respiração é diferente.
Embora funcione automaticamente durante todo o dia e durante o sono, também pode ser modificada conscientemente.
Podemos alterar o ritmo, a profundidade, a duração ou introduzir pausas respiratórias.
Esta característica faz da respiração uma das poucas funções fisiológicas que estabelece uma ponte direta entre os processos automáticos do organismo e a nossa consciência, ou seja, a respiração é simultaneamente automática e voluntária.
É precisamente esta ponte que torna o Pránáyáma tão valioso.
Ao influenciarmos conscientemente a respiração, influenciamos simultaneamente vários sistemas do organismo.
1.2. Porque sentimos mais energia quando respiramos melhor?
Voltamos à parte da definição que nos diz que a respiração é “Pránika / energética”.
Uma das funções da respiração consiste em fornecer oxigénio ao organismo.
Esse oxigénio é transportado pelos glóbulos vermelhos através da hemoglobina, uma proteína que contém ferro. É precisamente por isso que pessoas com anemia ou carência de ferro podem sentir mais fadiga, fraqueza ou tonturas: a capacidade de transporte de oxigénio encontra-se diminuída.
Contudo, respirar melhor não significa simplesmente respirar mais.
O verdadeiro benefício encontra-se na eficiência respiratória. Quando respiramos de forma superficial, acelerada ou constantemente em tensão, gastamos mais energia do que seria necessário. O organismo permanece em estado de alerta, os músculos mantêm-se mais contraídos e o sistema nervoso mais ativado.
Uma respiração mais ampla, consciente e tranquila favorece uma melhor utilização do diafragma — o principal músculo respiratório — e ajuda o corpo a funcionar de forma mais equilibrada.
No Yoga trabalha-se conscientemente a utilização das diferentes zonas respiratórias, a respiração nasal e as várias fases do ciclo respiratório.
Com o tempo, muitas pessoas descobrem algo curioso: terminam a prática com mais energia do que aquela com que começaram.
Não porque tenham criado energia de forma mágica, mas porque deixaram de desperdiçar tanta energia em estados constantes de tensão, agitação e sobrecarga.
Relaxar também é uma aprendizagem.
Respirar também é uma aprendizagem.
1.3. Respiração, emoções e sistema nervoso
Agora vamos perceber a única parte da definição de Pránáyáma que nos falta explorar: “exercícios respiratórios de influência emocional”.
No Yoga, a respiração realiza-se predominantemente pelo nariz.
E isso não acontece por acaso aliás, nada no Yoga é por acaso!
Ao respirarmos pelo nariz, o ar é filtrado, aquecido e humidificado antes de chegar aos pulmões. Simultaneamente, passa pelos recetores olfativos, estimulando vias neurais associadas ao olfato.
O olfato possui uma ligação particularmente próxima com regiões cerebrais envolvidas na memória e nas emoções, frequentemente agrupadas sob a designação de sistema límbico.
Talvez por isso determinados aromas consigam transportar-nos instantaneamente para uma memória distante ou despertar emoções específicas.
Mas existe algo ainda mais interessante. A relação entre respiração e emoções funciona nos dois sentidos.
Quando estamos ansiosos, tensos ou emocionalmente sobrecarregados, a respiração altera-se naturalmente.
Por outro lado, ao modificarmos conscientemente a respiração, conseguimos influenciar a forma como nos sentimos.
A respiração torna-se assim um espelho do nosso estado interno.
Se aprendermos a observá-la, ela pode revelar-nos muito sobre a forma como estamos a viver, reagir e sentir.
Quando o stress se prolonga durante demasiado tempo, o organismo mantém elevados os níveis de substâncias como o cortisol e a adrenalina. Embora estas hormonas sejam fundamentais em situações pontuais de adaptação, a sua presença constante pode contribuir para desgaste físico e emocional.
É aqui que a respiração consciente assume novamente um papel fundamental.
Ao abrandarmos e regularmos o ritmo respiratório, favorecemos estados fisiológicos associados ao relaxamento, à recuperação e ao equilíbrio.
Desta forma ajudamos o organismo a responder de forma mais saudável aos desafios da vida.
Reaprender a parar
Talvez um dos maiores desafios da vida moderna seja precisamente este: reaprender a parar.
Porque não é apenas na ação que encontramos força. Também é na pausa.
Parar significa escutar, observar, sentir, compreender.
Criar espaço para que a ação seguinte possa surgir com maior clareza e consciência.
A respiração oferece-nos essa possibilidade a cada instante.
Ela acompanha-nos desde o primeiro momento da vida até ao último.
Está sempre presente.
Talvez por isso nos esquecemos tantas vezes da sua importância.
Respirar conscientemente não eliminará todos os desafios da vida.
Mas pode transformar profundamente a forma como os atravessamos.
Porque muitas vezes não é o mundo exterior que mais nos desgasta.
É o ruído interno.
E talvez uma das mais belas aprendizagens do Pránáyáma seja precisamente esta: no meio de todo o ruído, reaprender a escutar.
Agradeço ao meu Sat Guru Jí e Paramá Guru por todos os ensinamentos.
OM Namah Paramá Guru
OM Sat Gurave Namah
